quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Prece do intelectual

Ó poderes superiores, fazei com que eu me aceite como sou: limitado e esforçado. Capaz de acertar e ser brilhante, mas também de errar e de dizer bobagem. Que eu me aceite também na minha incapacidade e, sobretudo, na minha ignorância e burrice.
Fazei com que eu, que tanto gosto de ensinar os outros, possa aprender com todo mundo. E mais: que tenha a humildade para entender que não sei e posso tudo e, pior ainda, que um dia serei esquecido. Permiti ainda que eu tenha a coragem de fazer o mais difícil e dizer em alto e bom som: não li esse livro, não conheço essa teoria, jamais ouvi falar desse autor!
Fazei também com que entenda que tudo tem uma data e um horizonte. Que tudo o que aprendi não tem serventia eterna: é transitório, sujeito a chuvas e trovoadas e mutante como as emoções humanas. Abri meu coração, potências portentosas, para que eu me conforme com a superioridade dos meus colegas e concorde que eles pensam, falam, escrevem e compreendem as coisas melhor e com mais precisão e equilíbrio que eu.
Fazei também, seres superiores, com que eu possa ouvir os outros: sobretudo meu marido, parentes, amigos, auxiliares e, principalmente, meus filhos. Mas que n subestime a voz dos inimigos e dos estranhos. Permiti que eu saiba distingüir entre elogio e puxa-saquismo, lisonja e amizade, presente de grego e dádiva generosa, admoestação sincera e falta de respeito.
Que me seja possível honrar minha humanidade, sendo bem-humorado sem ser cruel, cínico, inconveniente e agressivo. Que seja sábio nas perguntas e profundo nas respostas.Que seja parcimonioso, mas preciso e generoso, nas citações e no arrolar dos fatos, datas, pessoas e lugares.Dai-me a goragem, potências divinas, para discordar dos colegas de prestígio e para conter minha arrogância junto aos discípulos que divergem de mim.
Que não me seja permitido confundir explicação com racionalização e ideologia interessada com uma leitura honesta dos fatos.Do mesmo modo, não deixai que eutroque a estética da teoria pelo clamor da vida e dos fatos que não podem ser totalmente explicados por ela.E que possa corajosamente exercer meus sentimentos e minha intuição sem demagogia.
Que meu corpo seja tão importante como ponto de referência quanto a minha mente.Que possa ter plena noção de minha fraqueza, finitude e fragilidade. Que possa abrir mão dos meus controles para enxergar os meus descontroles com serenidade e paz.Finalmente, que eu possa, apesar de velho e corroído pelo desânimo, continuar sempre curioso e ávido de coisas novas.
Amém



*adaptado pelas circuntâncias da dona do blog^^

Um comentário:

bib's disse...

Me esqueci de citar o autor:
Roberto DaMatta

o texto integral leva o leitor a refletir sobre a (falta) de humildade intelectual que parece ser inerente ao homem.O texto também nos leva a refletir sobre a situação do nosso país, recheada de "burros-doutores", que nada sabem e em todos mandam, de forma truculenta e pretenciosa.
Em síntese, o autor pretende levar o leitor a compreender a sutil(?) diferença entre inteligência (na verdade sabedoria) e erudição.
Parafraseando Sr. Feynnes, "erudição é apenas o exercício da boa memória"; inteligência trata do exercício da curiosidade, tão celebrada por Aristóteles e tão massacrada pelo nosso sistema de ensino.